Aqui jaz uma personagem

A vida é singular. E todos nós somos personagens de uma mesma história. Mas nunca gostei de generalizar, pois cada um é uma história dentro da história. História a parte, que vive e morre. Criei uma personagem que pudesse criar outras personagens e, assim, ter companhia.

Se na vida real, na maternidade é que começam as historietas, em meu livro, cada capítulo é um nascimento e as palavras são as responsáveis pelo parto.

Sim. Usei da metalinguagem. Porém, viver, por si, não é metalinguístico?

Sucintamente, "Aqui jaz uma personagem" é o livro de alguém que também foi criada pelas palavras. Uns artigos + alguns substantivos + meia dúzia de verbos e assim ela nasceu.

Trechos do livro:

"E é com este sentimento que inicio.
Entre. Sente-se. Aceita uma xícara de chá? É de camomila. A mim, camomila tem gosto de saudade. Eu sei que grande e pequeno são conceitos relativos, mas essa saudade é relativamente grande. Cabe numa caixinha de alfinetes, claro. Mas não cabe no peito.
Talvez o coração seja pequeno demais.
Ou só esteja cheio demais.
Cheio de amor. Mas sabe que o ponto de ebulição do amor é bem menor que o da saudade? Atuo com metáforas, todavia é inevitável a comparação. Você logo sente arrepios de amor, já a saudade é sorrateira, vem de mansinho e eu não sei qual é o pior.
Nego-me a contar.
Pois conte!
Não contarei.
Pois conte!
Repudio-te.
Ah, era isso...
Não...
É que quando se espera um “feliz para sempre” que nunca chega. Dói.

[...]


Desencadeio a ideia de que preciso pensar mais. Mas entrar nos pensamentos. Diferente de pensar. Afundar. Nadar. Interiorizar. Diferente de dormir.
Pois durmo. E certa hora há uma luz que ofusca a vista. É verde. Não sei bem se estou sonhando, mas é verde. Pisca ora lá e ora cá. Pois, claro, é um vaga-lume. De certo que não lembrava, nunca, jamais, em hora nenhuma que houvesse tido uma visita tão inesperada e... Eu gostei. Eu amei. Eu queria ter pedido para ele ficar mais ali, queria saber conversar com vaga-lumes. Todavia o deixei o tanto que ele achasse necessário. Piscou dez vezes. Senti que a última piscada foi como um “tchau” e voltei a dormir. Ele voltou a piscar por aí.

[...]


Olhando daqui, e para o alto, entendo que há algum tempo Santos Dumont quisesse ter asas. Não acredito, entretanto, que tenha sido para olhar a Terra de cima. Sua ânsia devia estar impregnada à vontade de sentir-se realmente livre; de querer que o vento batesse em suas faces, gelado, fazendo-o remar – se assim posso dizer – contra a direção de seu sopro.
Voltando do hospital, de ímpeto, pensei: não posso mais criar pessoas! Elas somem, me deixam saudades... Lembrei-me de Lúcio. Que horror. Que pessoa má que eu tinha colocado no mundo.
Personifique o mundo.
Não quero mais escrever. Cansei.
Que seja sua última criação: personifique o mundo!

[...]
O livro está sendo vendido no site da Editora Patuá, clique aqui para conhecer todo o catálogo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

obrigada pela sua opinião!